24 de junho de 2009

desde o velho mundo

Ontem, dia 16 de junho, Lula publicou um texto no jornal espanhol El Pais, em razão de um encontro a ser realizado no mesmo dia entre Brasil, China, Índia e Rússia.

Os questionamentos ali expostos constituem, ao meu ver, o cerne de uma política internacional distinta daquela com a qual estamos acostumados a conviver.

Em minha opinião, existe no Ocidente praticamente um discurso único, com suas matizes, em torno das adesões e manifestações políticas. A palavra que conduz as pessoas às ruas, nas suas manifestações de apoio, costuma ser a exigência pelas liberdades civis, normalmente atreladas à opção pelo sistema político da democracia representativa, e pela proposta das estratégias pacíficas.

Se tomarmos a França como exemplo, podemos observar com que insistência, bem representada pelo editorial Le Monde, a população se comove com as disputas em torno das liberdades. Há pouco presenciamos as manifestações realizadas em prol da democracia política representativa no Irã. Estão todos preocupados com que as urnas sejam, de fato, expressão da escolha da população iraniana. Fato importante, incontestável.

Mas algo parece estar fora do lugar: ouve-se, do discurso do primeiro ministro de Israel, não ocidental, às posturas de Barak Obama, eleito tacitamente como o grande mediador de conflitos, o tema da Paz, da Democracia e das Liberdades Civis.

Parece estarmos bastante convencidos de que o que nos levou ao desenvolvimento civilizacional e ao suposto respeito às crenças religiosas foi a formação política de um modelo de Estado democrático de direito.

Por isso, é nosso direito moral propagarmos esses modelos para que outros grupos políticos possam seguir os passos que poderão conduzi-los à superação de seus atrasos.

Assim se justificam as intervenções humanitárias e bélicas, assim se explicam os conflitos existentes no Oriente Médio. Vivem em conflito porque ainda não possuem um sistema democrático e laico.

Assim se explicam as dificuldades de avanço dos países ocidentais eternamente em desenvolvimento. Quando atingirem um sistema político em que as instituições estejam solidamente construídas sob as garantias da democracia liberal e representativa, sob as garantias das liberdades civis, então, estaremos diante de países que atingirão o desenvolvimento.

Esse pensamento parece oferecer uma dedução, ou um passe de mágica, que ainda não está muito claro para mim. Então, se conquistarmos determinado modelo político de Estado passaremos a desfrutar de uma economia potente que nos garanta condições adequadas de vida, conviveremos com a garantia de direitos hoje considerados universalmente válidos, como o respeito ao meio ambiente e a realização do desenvolvimento sustentável, presenciaremos a convivência multicultural e pacífica entre grupos de distintas religiões?

Esse salto parece implícito na luta abnegada do Ocidente do Norte (agora façamos a distinção político geográfica) em desejar aos seus vizinhos do Sul e do Leste o mesmo sucesso que conseguiram em suas brilhantes carreiras de democratas preocupados com a preservação dos recursos naturais e com as caridades onguistas.

Estou muito contente em ver como se ocupam conosco!

Mas é hora de voltar ao artigo de Lula. E transcrevo aqui apenas as perguntas expostas no artigo:

“Estão dispostos, os países ricos, a aceitar uma supervisão e um controle supranacionais do sistema financeiro internacional, com o fim de evitar o risco de outra crise econômica mundial?

Estão dispostos a renunciar o controle das decisões no Banco Mundial e FMI?

Estarão de acordo em cobrir os custos da adaptação tecnológica necessária para que as pessoas dos países em vias de desenvolvimento se beneficiem do progresso científico sem realizar dano ao meio ambiente mundial?

Eliminarão os subsídios protecionistas que fazem com que a agricultura moderna seja inviável em muitos países em vias de desenvolvimento e deixam os agricultores pobres a mercê dos especuladores de matérias primas e dos doadores generosos?”

Essas são diretrizes, a meu ver, tão importantes quanto os debates pela liberdade civil e pela construção de Estados democráticos, em sua versão representativa e laica (embora tenha dúvidas sobre essa possibilidade em sociedades fundadas em outras concepções de autoridade e poder).

Entretanto, a disposição das matérias no dia 16 de junho no jornal esquerdista da Espanha, deixa a descoberto a disposição com que os grupos políticos dos países dos blocos até hoje entendidos como dominantes e desenvolvidos têm em enfrentar com alguma honestidade a possibilidade de universalização real de direitos e garantias.

Na capa, uma foto da convulsão política iraniana, com o tema “uma maré humana desafia em Teerã o triunfo de Ahmadineyad”. Nas sete páginas seguintes, artigos, debates e opiniões sobre o caso iraniano. Dentre as notícias, uma produzida em Luxemburgo “França e Alemanha exigem a Teerã que investigue as irregularidades”.

No restante do jornal, nenhuma nota sobre o encontro acontecido no mesmo dia entre o grupo que se autodenomina BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China). Apenas um artigo de Lula, que no dia seguinte, 17 de abril, seguiu sem comentários ou reações. Somente uma nota sobre a reunião entre os países, no qual China, a maior credora dos EUA, anunciava uma ajuda monetária ao seu devedor.

Parece que nossos companheiros desenvolvidos gostam mesmo é de produzir slogans e passeatas. Adorariam que o Sul ocidental e o Oriente Médio mudassem, desde que não precisassem abrir mão de nenhuma de suas conquistas conseguidas por vias imperialistas, de dominação política e destruição do meio ambiente. A máxima concessão são as fábricas de ONGs caridosas que se propõe a salvar crianças, e que já encontraram uma maneira eficiente de lucrar com isso.

Um comentário:

m.davi disse...

Com isso, também (re)penso a minha atuação como intelectual e profissional. Boas palavras, bom retorno!