18 de setembro de 2011

Porque hoje o dia nasceu em poesia



Eu abro os olhos e ali do lado ela remexe o corpo. Eu paro os olhos sobre ela e espero o tempo passar. E ele passa lento neste quarto. Ela abre os olhos. Circula pelo espaço e encontra os meus. Fecha os olhos bem devagar e sorri, enquanto procura meu rosto com as mãos. Eu lambo a cria. Ela toca meu rosto e examina. Ela abre os olhos. Eu lambo a cria. Ela encontra minhas mãos e examina. Levanta as pernas.  Lentamente fecha os olhos, enquanto ensaia um sorriso pra mim. Eu lambo a cria. Ela estende o corpo relaxado sobre o colchão. Eu a olho. Ela abre os olhos. Se vira em minha direção e volta a me examinar. Encontra os meus cabelos. Eu lambo a cria. Ela suavemente retira o seu olhar sobre mim. E começa a examinar o mundo. Balbucia sons. Eu cuidadosamente retiro o olhar sobre ela e vou criar as palavras. O sol, que já está alto, é uma bola de fogo e poesia.

O fio da Olívia




Este fio que a Olívia segura é longo, não envelhece, não se desfaz. É um fio que não tem início. Quando vamos atrás do começo, ele se perde em outras mãos, tantas mãos, que vieram antes da Olívia, antes de mim, antes da mãe, antes do pai, antes da vó, antes do vô, antes de antes de antes ancestrais. É um fio que guarda consigo amor, e também violência. Que guarda memórias felizes, e dias escuros. É um fio de contrastes. É um fio que cresce. Que das mãos da Olívia gerará outras raízes, percorrerá outras mãos, registrará acontecimentos, memorizará fotos e palavras. Neste fio tem os cuidados da minha mãe, a dignidade do meu pai, as palavras da Cacá, as fotos do Felipe, as minhas perguntas, os silêncios do Adriano, as costuras da Regina, as histórias do João, os sons da Cris. Tem amigos e companheiros que criaram raízes em mim. Tem o desaparecimento da Tarsila, as ruas do Lulu, os passeios da Fofa. Tem Chicão e Jamelão. Tem a Betania. Tem a outra casa da Hilda.E mesmo tendo tanta coisa, ele não pesa. É leve o suficiente pra que a Olívia imprima ali seus olhares.  Resistente o suficiente para que a sustente em seus passos.
É nosso. Que vem de não sei onde. E segue o fluxo da vida, como tem que ser.

7 de julho de 2011

De olívias

(em resposta a uma colorida colcha de retalhos recebida pelo correio)


Querida Marisse,


A colcha de retalhos chega em tão boa hora. Feita pra acolher e levar os pés ao chão. E ao colocá-los no chão, na nossa Terra, deixarmos trocar toda a energia que nos faz caminhar e querer viver um pouco mais e um pouco mais e um pouco mais.

Pensar na Olivia em meu colo, entre panos, pensar em estar com a Olivia pelo chão, na colcha de retalhos, é conectar-me com uma possibilidade imensa e feliz de ter mais uma vez a oportunidade de construir minhas raízes. De aprender a tê-las e fazê-las nascer.

O nome da Olívia, dos galhos retorcidos, das raízes antigas e profundas, é o meu nome de criança. Ter a Olívia nos braços, no meu corpo, é minha chance também de embalar a minha criança que vive lá dentro, de ensiná-la a por os pés no chão, de retorcer meus troncos, mais para o fundo da terra.

A maternidade é também minha oportunidade de criar em mim a minha criança que ficou lá atrás um pouco esquecida, que me vem com um força incontida e alegre, mas que me bate à porta com insistência pra cuidar do seu abandono. 

Olívia está para chegar. E seja ela quem for, expresse ela o que puder e quiser, terá em mim os braços e o colo de quem deseja a ela que encontre suas raizes, e as saiba arrancar.

Olívia está para chegar. E sua chegada já regenera a minha criança de dentro. Aprenderemos juntas, se pudermos. E enquanto a observo nas suas escolhas de cheiros e solos, tateio meus escuros e aprendo também a me presentear com o tempo das minhas raízes.

Nós duas esperamos você (e a olívia que tem em você) e as suas olívias que você gerou e acolhe, para sentarmos todos na colcha de retalhos. No fundo de quintal, na frente do mar.

Da Olívia que tem em mim, e da Olívia que chegará em março.

Florianópolis, 04 de fevereiro de 2011.

8 de fevereiro de 2011

A tecnicização da vida


Em tempos de parto me surgem várias percepções que antes sequer faziam parte dos meus interesses. Mas como não somos seres divididos, a ponto de fantasiar personagens radicalmente distintos em cada "setor" da vida (embora assim entendam alguns funcionalistas), as questões que sempre me afetaram no cotidiano me fizeram também procurar, no longo caminho de um gestação e do preparo para o acolhimento de uma nova vida, formas de vivenciar isso de forma menos alienada possível. Que eu pudesse fazer minhas escolhas a partir de informações, discussões, descobertas. E de fato, esse tem sido um mundo de descobertas. Algumas nem tão novas assim.

Toda aquela mediação de tecnicização alienante e seus paradoxos bem descritos na "dialética do esclarecimento" também atingem claramente esse momento misterioso do nascimento. Podemos chamar isso de reflexos da biopolítica ou parte de um projeto de modernização que inventou a doença para descobrir a cura. Não são bem esses os conceitos que me interessam aqui.

A entrada da medicina e seu desenvolvimento técnico na cena do nascimento trouxe, em um primeiro momento, uma diminuição nas taxas de mortalidade materna e neonatal. Mas as intervenções que surgiram para enfrentar situações específicas, tornaram-se a rotina obstétrica. A ponto de a mulher, aquela que pare, perder o papel de personagem principal, e tornar-se ali um objeto de intervenção incapaz de experenciar aquele momento como seu. O parto como ato médico e quase cirúrgico (mesmo quando falamos aqui de "partos normais" tradicionais - com administração de ocitocina, analgesia, fórceps, episiotomia) passou a mediar o poder da mulher de parir e o acolhimento de seu filho.

Já faz anos que esse quadro, através de políticas de saúde ou de iniciativas individuais, tem conseguido reverter-se um pouco. Mas a sombra cultural que se construiu durante décadas, na qual a mulher se vê incapacitada do poder de parir e na qual ela antecipa todas as intervenções que eventualmente podem ser necessárias (segundo dados da OMS, "eventualmente"representa menos de 15% dos partos) ainda é uma forte herança a se enfrentar.

Para caricaturizar a construção dessa longa sombra, um vídeo dos impagáveis Monthy Python.



30 de janeiro de 2011

Oração ao Tempo


Já que este é o tempo da vida, da continuidade, do desconhecido, dos ciclos, do fim e do recomeço. Já que este é o tempo do tempo, o "compositor de destinos".


23 de outubro de 2010

Mirisola, Maria Rita Khel e a Sauna Finlandesa

Aproveitando a onda Mirisola, publico outro texto que vale a pena!

Estatuto da Sauna Finlandesa
"Que o caso de Maria Rita Kehl sirva de exemplo, porque qualquer manifestação de solidariedade será punida rigorosamente"

Maria Rita Kehl, colunista do jornal O Estado de São Paulo, disse que os leitores daquele jornal são uns merdas porque eles acham que o voto deles vale mais do que o voto do coitado que vive às custas do Bolsa Família. Foi demitida no ato.  Claro que ela não usou essas palavras, mas resumidamente foi isso o que quis dizer (leia aqui o artigo de Maria Rita Kehl). 

Ninguém pode acusar o Estadão de ser incoerente e não ser fiel aos seus leitores. Uma semana antes, o jornal mandou a pluralidade, a isenção e a hipocrisia pro espaço e engajou-se na campanha de José Serra, candidato da oposição e presidente aclamado e eleito nas redações e Saunas Finlandesas dos clubes Pinheiros, Harmonia e Paulistano – lugares nobres onde os votos decerto são mais valiosos e valorizados.

Maria Rita Kehl também é psicanalista e conhece os eleitores de Jose Serra e os leitores do Estadão de perto, e os atingiu no alvo. Dessa vez, o divã não agüentou, e partiu-se no meio da sessão. Ela tem toda minha solidariedade.  Agora, quero ver como é que vai ficar pro lado dos colunistas de “esquerda” daquele jornal. Se o Estadão insistir na coerência e na defesa da liberdade de expressão, apenas os colunistas que são autores de biografia de banqueiro e/ou os que guardam afinidades com os anos dourados e a orquestra de Sylvio Mazzuca, digo, com o projeto editorial do jornal, continuarão a escrever por lá. Os demais serão sumariamente demitidos por justa causa!

Ora, que desaforo! O que esses comunistas estão pensando? Eles que escrevam seus manifestos vermelhos lá no jornalzinho do MST!   Essa Maria Rita azedou o desejum de tia Ligia no Clube Harmonia. Atrevida! 

Te cuida, Marcelo Paiva!  Corre à boca miúda e graúda que o senhor freqüenta os bas-fonds da rua Augusta, anda na companhia de vagabundos, atores, atrizes e travestis, não usa mocassim de franjinha e consome álcool, fumo e quiçá outras substancias entorpecentes e alucinóginas. Além disso, é aleijado, escreve peças pornográficas e fala palavrão na frente das criancinhas. O Estadão está de olho em você. A mesma advertência vale para o senhor Luis Fernando Veríssimo, outro colorado que escreve há décadas no conceituado jornal paulistano.

-  Como é que pode?  Essa gente infiltrou-se em nossas fileiras e cospe no prato em que come. Mal agradecidos! Que o caso de Maria Rita Kehl sirva de exemplo, porque qualquer manifestação de solidariedade será punida rigorosamente de acordo com oEstatuto da Sauna Finlandesa, que segue:

Dos limites territoriais.

O Brasil começa e termina nas dependências sociais de nossas saunas finlandesas, quadras de tênis, shopping centers, prados e campos de pólo.

Artigo 1.  A liberdade de expressão é sagrada, inegociável, inalienável e irrevogável. Fica proibido qualquer tipo de censura, caça às bruxas, manipulação, destruição de biografias, bem como qualquer tipo de índex e/ou exclusão por motivo de orientação política, sexual e religiosa... isso tudo bem longe de nossas dependências. Porque aqui dentro manda quem pode e obedece quem tem juízo, e não se fala mais nisso.

Artigo 2. Fica proibida a entrada de pobres;
Inciso I. Pobre só entra pra servir à gente;

Artigo 3. Fica vetado o uso de aparelhos celulares pré-pagos dentro das dependências das saunas; portanto pobre só abre a boca o mínimo e o necessário e somente quando for solicitado no exercício de suas atribuições e funções;
Inciso I. São funções dos pobres dizer:  “Sim senhor”, “Às suas ordens”, “Amém”,“Agora mesmo”, “Serrra”,  Serrra”.
Inciso II.  Também é função do pobre empinar o traseiro e escrever bonitinho sempre que for solicitado, e quando não for solicitado idem;
Inciso III  Todos os nossos funcionários, independentemente do cargo que ocupam, serão denominados “pobres” ou “empregadinhos”.

Artigo 4. Pobre nunca tem razão;

Artigo 5. Ficará vetado ao pobre a audição, a fala, o tato e o olfato e o exercício de quaisquer sentidos que não sejam os da subserviência e agradecimento; 
Inciso I. Pobre só se mete nas conversas do patrão nas novelas do Manoel Carlos;

Artigo 6. Fica proibida a venda de eletrodomésticos a prestação; 

Artigo 7. Pobre tem que ser limpinho;
Inciso I. Os chihuahuas e poodles que freqüentam nossas dependências sociais também terão de ser igualmente limpinhos, esterilizados e tosados em intervalos regulares de quinze dias;
Inciso II. Descontaremos os serviços de lobotomia no contra-cheque.

Artigo 8. Pobre tem que morar longe da gente. Bem longe;
Inciso I. Eles que se virem para chegar no horário. 

A
rtigo 9. Pobre é burro, porco e analfabeto, e não tem nada o que tirar das pérolas que escrevemos em nossos editorias impecáveis;
Inciso I. Não toleraremos opiniões contrárias.
Inciso II. Euclides da Cunha foi nosso empregadinho, portanto trate de enfiar o rabo entre as pernas, vote no Serrrra e traga o badejo;

Artigo 10. Nossos empregadinhos ficam obrigados a fazer propaganda e VOTAR  no Serrrra;
Inciso I. Pronuncia-se Serrrra: a língua do funcionário, bem como a alma que são nossas contratadas, devem tremer no começo do céu da boca e arrastar multidões goela abaixo;
Artigo 11. Pobre não sabe votar;
Inciso I. Nossos pobres VOTAM no Serrrra
Inciso II. A Maria Rita Kehl que vá cantar noutra freguesia

Artigo 12. Pobre é uma MERDA, e ficam revogadas todas as disposições em contrário. 

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra ostatus quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvidoBangalô O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

19 de julho de 2010

Copa só para os Bacanas



"Pessoas queridas!
Como alguns sabem, estou no Rio de Janeiro, organizando algumas coisas para minha pesquisa.
Sim, a cidade continua maravilhosa. E a maravilha se mantém em virtude dos grandes esforços realizados pela população e pelos governantes!
É para explicar a fórmula da Cidade Maravilhosa que vim aqui escrever para vocês numa deliciosa noite de segunda-feira. Temperaturas ótimas e o clima que só o Rio tem nas noites de janeiro.
A fórmula para o rio de janeiro continuar lindo é reiventada de tempos em tempos, desde quando a cidade ainda era capital do Império. O novo nome se chama: Choque de Ordem.
Segundo notícias dos jornais que tenho acompanhado há uma semana (JB e o Globo), o novo prefeito começou seus trabalhos com um dos braços fortes da política: em defesa da ordem pública! Segundo leitura de jornalista da Carta Capital, esse "inovador" projeto do novo prefeito tem como objetivo atingir especialmente a Zona Sul Carioca, reduto de votação de simpatizantes do Gabeira. Sim, o novo governo entendeu que precisava reforçar e conquistar um eleitorado com as seguintes características: pessoas bossa-nova, cools, talvez alguns ex-participantes da luta contra a ditadura, talvez alguns ativistas que lutam pelo reconhecimento de direitos das minorias, e acima de tudo, um eleitorado exigente, intelectualizado, de esquerda, e que claro, gosta de sair de noite para passear com seus cachorrinhos, e querem se sentir seguros para exercer esse importante direito civil.
Pois bem, para esses eleitores serve o "choque de ordem". Novo governo, velhas práticas. A linha mestra do programa é limpar a cidade, a começar pela zona sul. Para os que não tem claro o significado da palavra sujeira, a leitura de alguns editoriais do JB e o Globo pode ser esclarecedor. Guardei um deles e reproduzo num momento com mais tempo. Mas para encurtar o caminho, alguns sentidos da palavra para vocês: sujeira = lixo, moradores de rua, camelôs, prostitutas, travestis e toda sorte de entulho. Sim, claro assim, com todas as palavras.
Acompanho, há uma semana, os exigentes jornais, com seus exigentes leitores, exigindo do novo prefeito que o tal "choque de ordem" comece a funcionar a pleno vapor, porque afinal as pessoas já não suportam andar pelas ruas da cidade e tropeçar em tanta sujeira. Querem que as calçadas fiquem livres pros seus cachorros, nos passeios noturnos, pras suas mesinhas de bares, pro chopp de fim de tarde.
No jornal de domingo apenas um tímido artigo de um tímido intelectual, professor de uma tímida Universidade, em que afirmava suas dúvidas quanto à eficácia das políticas de limpezas de ruas à moda nova iorquina. Fora isso, um nada sonoro. Um silêncio barulhento. Nada e nada. A isso se reduzem as dissonâncias. 
Há cerca de meia hora desci do meu quarto confortável de um hotel em Copacabana (porque, claro, preciso me sentir entre os meus, bossa-novas e seus cachorrinhos de estimação), para fugir do tédio. Na esquina da rua do hotel Jucati, encontro estacionado um furgão da prefeitura, com letras coloridas que diziam "CopaBacana". Também poderia ser traduzida: "Copa só para os bacanas". Dentro do furgão, meninos (de rua). Em volta do furgão, funcionários da prefeitura, e uma funcionária de luvas de borracha. Afinal, são normas do trabalho: para trabalhar com lixo é preciso que se utilize de equipamentos apropriados. Atrás do furgão, um caminhão da prefeitura, que levava os lixos que acompanhavam os lixos: cadeiras, isopor, e restos das moradas de quem mora na rua.
O carro CopaBacana fazendo seu trabalho: garantir o bairro para os Bacanas. No período em que esteve estacionada a frota de limpeza da cidade, alguns bacanas passeavam com seus cachorrinhos. Claro, todos com suas sacolinhas de plástico para limpar as ruas da sujeira dos seus adoráveis bichinhos que usam, inclusive, sapatinhos (que provavelmente, custam mais do que o isopor, as cadeiras quebradas: afinal para os bichinhos quadrúpedes, são preciso dois pares).
Alguns passavam sem olhar. Outros paravam, perguntavam do que se tratava, e continuavam seu caminho, talvez mais aliviados. Um deles parou na esquina e gesticulava com a moça de luvas. Eu queria acreditar que era algum protesto ingênuo, mas diante das circunstâncias, penso que ele apenas reclamava que na outra esquina ainda tinha lixo. Era o rapaz oferecendo à agente de limpeza o mapa das lixeiras.
Durante a meia hora noturna de espetáculo, nenhum repórter, nenhuma foto, nenhum registro.
O silêncio é o maior espetáculo. Motivado pelo aplauso ou pelo constrangimento. Não importa. O silêncio cumpre seu papel de assinar a política sem escrever o nome. Uma assinatura invisível e silenciosa da politizada população zona sul preocupada em garantir os direitos civis, rememorar os maus momentos da ditadura, ir ao cinema e apoiar a causa palestina.
Provavelmente tenham esquecido da derrota do Gabeira. Eduardo Paes está cumprindo bem sua função. Com discrição, é claro."

(Rio de Janeiro, Janeiro, 2009).