11 de abril de 2012

Como será que se faz?

Estou segura que criar filhos é um ato coletivo.

Mas ao contrário, nos nossos mundos, cada dia mais filhos são de responsabilidade de um, no máximo, dois. Além disso, o que sobram são terceirizações profissionais e institucionalizações, a que chamamos de sociabilização. A toada é mais ou menos essa: meu filho (de menos de 1 ano) começou a ir para a escola para se sociabilizar, ele precisa conviver com outras pessoas. Estou segura (de novo) que só temos uma certeza: essa criança começará cedo seu processo de institucionalização, normalização, sua percepção de coletividade de regras, horários e comidas. Se  realmente se sociabilizará (a que custo?) só o filho mesmo saberá, daqui a um tempo.
Conforme as famílias "estendidas" foram sendo comprimidas no núcleo mãe e pai, e esse núcleo passou a ser cada vez mais requisitado (pela necessidade de produtividade) a estar fora de casa, a sociabilização passou a ser tema de profissionais, pedagogos, especialistas. E todo o mais, também.

"Todo o mais" nesse caso é, também, a amamentação. Nossos novos arranjos afetivos, nucleares, privados, preservados, são também os arranjos em que nós mulheres nos vemos diante de um abismo, diante da tarefa de reinventar a espécie. Basta que tenhamos diante de nós nossa primeira cria e nos deparamos com a necessidade-vontade de alimentá-la com nosso corpo. Mas como podemos fazer isso? Quantos mililitros de leite de peito deveremos dar a nossos filhos? De quantas em quantas horas? Primeiro o peito direito depois o esquerdo? Ou seria o contrário? Em cada mamada um peito só ou é melhor variar? Se tiver fissura, o melhor é pomada de lanolina ou casca de abacate? Se o peito não empedra é porque não tenho leite? E aí, cerveja preta? Chá de funcho? Mais de 10 minutos cansa o bebê? Ou cansa a mãe? Se deixar dormir no peito estou acostumando mal? Hora de comer é hora de comer ou peito também é carinho?

São tantas, tantas, tantas as dúvidas, carregadas de tantas, tantas, tantas angústias, que alimentar a cria se torna uma tarefa que precisa ser inventada. Se imaginarmos que nossa espécie se desenvolveu porque muitas mulheres alimentaram suas crias, não temos nenhuma dúvida de que isso não deve ser coisa difícil, que isso deve ser coisa que se nasce aprendendo. Mas quando somos nós e nossa cria, frente a frente, em nossas pequenas micro famílias mini-nucleares (desculpem-me o diminutivo absurdo... mas é para tentar retratar a sensação), temos que aprender a inventar a espécie, o alimento, a continuidade.

Continuidade de que, se o que nos circunda não é mais a tradição? Não são as mães, que aprenderam com as suas mães, que aprenderam com suas mães... que nos ensinarão (sem falar, talvez, mas com gestos e transmissões mais inconscientes). Entre nós e nossas avós um elo foi rompido. Boa parte de nossas mães nos pariram em um tempo de um mercado crescente de leite em pó no qual "não ter leite" era quase tão natural quanto usar mamadeiras. Elas tampouco sabem como um corpo faz leite ou para que serve uma teta.

Ganhamos com o fim da tradição a liberdade da informação. Aquela mesma que nos dá a possibilidade de questionar se a usual casca de abacate nos seios não poderia nos causar uma infecção terrível ao invés de fechar as fissuras do seio. Aquela que nos faz descobrir que a substância que ajuda a "descer o leite" é a cevada, e não propriamente a cerveja preta. Mas perdemos imensamente em suporte emocional. Em acreditarmos que nós, sim, nós mesmas, podemos alimentar nossos filhos. Vivemos sob a espada da dúvida constante: "será que tenho leite"? Para isso, a informação esclarecida pode ser um bom caminho. Mas não garante nenhuma chegada. A chegada está nos braços do amparo e da confiança em si. E isso não conseguimos no artigo científico nem na consulta ao especialista.

É um caminho longo e interior esse caminho de buscar em si algo que não aprendemos. Mas que de algum modo está conosco, está na espécie, ou sei lá em que raios está. Mas está. Sim, mais uma vez estou segura: que está.

Amamentar tornou-se também ato íntimo, a ser preservado dos olhares estranhos. E assim, se já perdemos a tradição da transmissão das gerações, também perdemos a transmissão entre mulheres da mesma geração. O convívio entre mulheres que amamentam. Poder observar outras nas ruas, nos lugares públicos, amamentando, como um ato espontâneo também nos levaria a aprender terrivelmente sobre nossa condição de "amamentantes".

Em dois rápidos instantes, na minha vida de mulher-que-amamenta, aprendi mais que em todas as informações que pude colher. Uma, foi numa tarde com uma amiga recém-conhecida. Olívia tinha 20 dias e passamos uma tarde conversando. E não conversamos sobre amamentação. Não foi um workshop sobre amamentação. Rimos,  falamos de angústias, novidades, alegrias ... enquanto amamentávamos. Observar minha amiga, dividir com ela o momento, me ensinou muito a entender minha cria. Noutro dia, numa daquelas salas de troca de fralda, sentei pra amamentar a Olivia e uma mulher em seu segundo filho, sentou ao lado. Conversamos (sobre filhos, claro) ... enquanto amamentávamos... Foi ali que descobri que a Olivia durante a mamada poderia estar com vontade de arrotar.... Simples assim. A mulher não me disse, mas eu bem que entendi.

Depois dessas duas situações, fiquei imaginando num ato de criar coletivo. E pensei que os especialistas perderiam sua importância, seu lugar, seu saber. Porque o saber não está ali, se entendo que "saber" não é igual a informação. Se entendo que "saber" é um saber-fazer, que cada um tem um modo particular-particularíssimo, também entendo que "saber" não se "aprende". Que o "saber" é mais sutil, mais democrático, mais horizontal, mais vivo que qualquer manual. E só acesso meu "saber" quando vivo, vivencio, experiencio, dividido, celebro... com outros... com outras.

Não encontro outra forma de viver a maternidade, sem o peso de refundar a espécie e sem as exigências da tradição. O convívio e a troca são as formas do meu saber-fazer onde reencontro o que há de fêmea na espécie humana e o que há de novo no meu feminino.

Estou segura que criar filhos é um ato coletivo.

18 de setembro de 2011

Porque hoje o dia nasceu em poesia



Eu abro os olhos e ali do lado ela remexe o corpo. Eu paro os olhos sobre ela e espero o tempo passar. E ele passa lento neste quarto. Ela abre os olhos. Circula pelo espaço e encontra os meus. Fecha os olhos bem devagar e sorri, enquanto procura meu rosto com as mãos. Eu lambo a cria. Ela toca meu rosto e examina. Ela abre os olhos. Eu lambo a cria. Ela encontra minhas mãos e examina. Levanta as pernas.  Lentamente fecha os olhos, enquanto ensaia um sorriso pra mim. Eu lambo a cria. Ela estende o corpo relaxado sobre o colchão. Eu a olho. Ela abre os olhos. Se vira em minha direção e volta a me examinar. Encontra os meus cabelos. Eu lambo a cria. Ela suavemente retira o seu olhar sobre mim. E começa a examinar o mundo. Balbucia sons. Eu cuidadosamente retiro o olhar sobre ela e vou criar as palavras. O sol, que já está alto, é uma bola de fogo e poesia.

O fio da Olívia




Este fio que a Olívia segura é longo, não envelhece, não se desfaz. É um fio que não tem início. Quando vamos atrás do começo, ele se perde em outras mãos, tantas mãos, que vieram antes da Olívia, antes de mim, antes da mãe, antes do pai, antes da vó, antes do vô, antes de antes de antes ancestrais. É um fio que guarda consigo amor, e também violência. Que guarda memórias felizes, e dias escuros. É um fio de contrastes. É um fio que cresce. Que das mãos da Olívia gerará outras raízes, percorrerá outras mãos, registrará acontecimentos, memorizará fotos e palavras. Neste fio tem teus cuidados, mãe, tem a tua dignidade, pai, tem tuas palavras, Cacá, tem as tuas fotos, Felipe, tem as minhas perguntas, tem os silêncios do Adriano, as costuras da Regina, as histórias do João, os sons da Cris. Tem amigos e companheiros que criaram raízes em mim. Tem o desaparecimento da Tarsila, as ruas do Lulu, os passeios da Fofa. Tem Chicão e Jamelão. Tem a Betania. Tem a outra casa da Hilda.E mesmo tendo tanta coisa, ele não pesa. É leve o suficiente pra que a Olívia imprima ali seus olhares.  Resistente o suficiente para que a sustente em seus passos.
É nosso. Que vem de não sei onde. E segue o fluxo da vida, como tem que ser.

9 de setembro de 2011

variações sobre o mesmo tema

1. 

Em julho fui patinar no gelo do shopping (!) com uma amiga, filha de uma amiga. Só eu e um monte de meninas e meninos, pequenos, jovens, crianças. Entravam e tombavam, tombavam, tombavam, até que deslizavam com os braços livres.
Eu me agarrei nas grades. Depois resolvi chamar o instrutor para me ensinar. Ele me atendeu prontamente e disse ressentido: - Se você quiser mesmo aprender, te ensino. Porque a criançada entra aqui e acha que já sabe patinar sem ninguém ensinar! [pelo visto, ele se sentia pouco requisitado]. 
Pronto, me deu alguns exercícios para eu fazer. Fiz, em repetição de dez. Depois, ele me ensinou como embalar o corpo. E lá fui eu.
Esgotaram os 30 minutos. Eu consegui não cair nenhuma vez! E não patinei.
Giulia, minha amiga, caiu algumas vezes. E deslizou na pista.


2.

Faz uma semana que chove. Têm os problemas decorrentes da chuva... ops... decorrentes da urbanização a todo custo...
E as pessoas, depois do segundo dia de chuva, o que fazem é reclamar da chuva. Reclamar da chuva.
Me lembrei de uma cena que assisti enquanto viajava pelos interiores da Bolivia. Chovia, eu dentro do ônibus, e quando avisto lá longe, as mulheres lavavam suas roupas na beira do rio. Chovia, mas era como se fizesse sol. 

3.


Há uma semana, numa aula de pilates, a professora me ensinava um exercício novo. Os movimentos eram longos e a respiração não alcançava. No meio do exercício, já quase amarela, perguntei: - E nesse exercício a respiração é em dois tempos? Posso respirar aqui?
Ao que ela me respondeu sem espanto: - Sim, pode respirar! São dois tempos.



O mesmo tema do nosso tempo de vida adulta civilizada:

1. O medo de cair
2. O medo da chuva [Toca Raul....! Viva Raul....!]
3. O dever da obediência


Oxalá Olívia trilhe seu caminho mais longe disso. E eu aprenda um novo caminho. E eu desaprenda para voltar a aprender. De outro modo.

7 de julho de 2011

De olívias

(em resposta a uma colorida colcha de retalhos recebida pelo correio)


Querida Marisse,


A colcha de retalhos chega em tão boa hora. Feita pra acolher e levar os pés ao chão. E ao colocá-los no chão, na nossa Terra, deixarmos trocar toda a energia que nos faz caminhar e querer viver um pouco mais e um pouco mais e um pouco mais.

Pensar na Olivia em meu colo, entre panos, pensar em estar com a Olivia pelo chão, na colcha de retalhos, é conectar-me com uma possibilidade imensa e feliz de ter mais uma vez a oportunidade de construir minhas raízes. De aprender a tê-las e fazê-las nascer.

O nome da Olívia, dos galhos retorcidos, das raízes antigas e profundas, é o meu nome de criança. Ter a Olívia nos braços, no meu corpo, é minha chance também de embalar a minha criança que vive lá dentro, de ensiná-la a por os pés no chão, de retorcer meus troncos, mais para o fundo da terra (porque na sensação de abandono aprendi muito a fazê-los correr atrás da luz do sol, e esqueci que lá no fundo da terra também se busca o sustento).

A maternidade é também minha oportunidade de criar em mim a minha criança que ficou lá atrás um pouco esquecida, que me vem com um força incontida e alegre, mas que me bate à porta com insistência pra cuidar do seu abandono. 

Olívia está para chegar. E seja ela quem for, expresse ela o que puder e quiser, terá em mim os braços e o colo de quem deseja a ela que encontre suas raizes, e as saiba arrancar.

Olívia está para chegar. E sua chegada já regenera a minha criança de dentro. Aprenderemos juntas, se pudermos. E enquanto a observo nas suas escolhas de cheiros e solos, tateio meus escuros e aprendo também a me presentear com o tempo das minhas raízes.

Nós duas esperamos você (e a olívia que tem em você) e as suas olívias que você gerou e acolhe (vicente, marina e giulia), para sentarmos todos na colcha de retalhos. No fundo de quintal, na frente do mar.

Da Olívia que tem em mim, e da Olívia que chegará em março.

Florianópolis, 04 de fevereiro de 2011.

8 de fevereiro de 2011

A tecnicização da vida


Em tempos de parto me surgem várias percepções que antes sequer faziam parte dos meus interesses. Mas como não somos seres divididos, a ponto de fantasiar personagens radicalmente distintos em cada "setor" da vida (embora assim entendam alguns funcionalistas), as questões que sempre me afetaram no cotidiano me fizeram também procurar, no longo caminho de um gestação e do preparo para o acolhimento de uma nova vida, formas de vivenciar isso de forma menos alienada possível. Que eu pudesse fazer minhas escolhas a partir de informações, discussões, descobertas. E de fato, esse tem sido um mundo de descobertas. Algumas nem tão novas assim.

Toda aquela mediação de tecnicização alienante e seus paradoxos bem descritos na "dialética do esclarecimento" também atingem claramente esse momento misterioso do nascimento. Podemos chamar isso de reflexos da biopolítica ou parte de um projeto de modernização que inventou a doença para descobrir a cura. Não são bem esses os conceitos que me interessam aqui.

A entrada da medicina e seu desenvolvimento técnico na cena do nascimento trouxe, em um primeiro momento, uma diminuição nas taxas de mortalidade materna e neonatal. Mas as intervenções que surgiram para enfrentar situações específicas, tornaram-se a rotina obstétrica. A ponto de a mulher, aquela que pare, perder o papel de personagem principal, e tornar-se ali um objeto de intervenção incapaz de experenciar aquele momento como seu. O parto como ato médico e quase cirúrgico (mesmo quando falamos aqui de "partos normais" tradicionais - com administração de ocitocina, analgesia, fórceps, episiotomia) passou a mediar o poder da mulher de parir e o acolhimento de seu filho.

Já faz anos que esse quadro, através de políticas de saúde ou de iniciativas individuais, tem conseguido reverter-se um pouco. Mas a sombra cultural que se construiu durante décadas, na qual a mulher se vê incapacitada do poder de parir e na qual ela antecipa todas as intervenções que eventualmente podem ser necessárias (segundo dados da OMS, "eventualmente"representa menos de 15% dos partos) ainda é uma forte herança a se enfrentar.

Para caricaturizar a construção dessa longa sombra, um vídeo dos impagáveis Monthy Python.



30 de janeiro de 2011

Oração ao Tempo


Já que este é o tempo da vida, da continuidade, do desconhecido, dos ciclos, do fim e do recomeço. Já que este é o tempo do tempo, o "compositor de destinos".