9 de abril de 2010

Elias

Na segunda refeição no avião ele se virou inesperadamente para mim e Adriano e ofereceu um pedaço de bolo como tentativa de alguma aproximação. Começou por elogiar a comida. E muito rapidamente começou a nos contar que voltava ao Brasil porque havia sido deportado do Japão. 

O restante da conversa foi a seqüência de cenas vividas nos últimos 6 anos por aquele moço, os quais passou na prisão em Tóquio. Estava há 20 anos no Japão. Foi para lá aos 21 anos, época em que trabalhava de motoboy na cidade de São Paulo. Nos contou que esteve no Brasil pela última vez há 13 anos, para visitar seus dois filhos que nasceram no Japão, mas voltaram a São Paulo com a mãe.

Cada fragmento da história que contava, em idas e vindas, era marcado pela angústia de imaginar o que seria São Paulo depois de tanto tempo, o que seria sua vida aos 40 anos e com a roupa do corpo, o que seria o retorno forçado ao que sequer pressentia que o pudesse aguardar.

Minutos antes eu conversava com Adriano sobre o retorno. A sensação de pisar no solo com todas as metáforas que podem caber a essa expressão: a certeza de que não há volta e de que as coisas nunca estão no mesmo lugar, a ansiedade que isso nos provoca.

E Elias falava de sua ansiedade. A ansiedade acumulada de 20 anos do retorno a sua terra já desconhecida. Ao lugar onde os laços nem são os mesmos e talvez sequer ainda existam. Dizia que não sabia se estava lúcido, se estava bem. Queria nos fazer acreditar em suas histórias. Para isso foi logo tirando da bolsa o documento de deportação. Para que acreditássemos nele. Elias queria ser acreditado. Queria que sua fala tivesse sentido, queria fazer sentido. E nós éramos seus interlocutores diante daquela tentativa primeira de fazer-se crer e criar depois dos anos de sobrevivência.

Quando foi preso, as autoridades japonesas foram até seu apartamento, que dividia com mais duas pessoas, e levaram seus pertences que nunca mais retornaram a ele. Dali em diante vestiu uniforme e raspou o cabelo. No uniforme marcavam-se os anos de prisão com estrelas bordadas no braço direito. Durante as manhãs iam marchando e em fileiras para o trabalho, enquanto ouviam as humilhações pronunciadas pelos funcionários. Trabalhavam para empresas de tecnologia japonesas. Os que faziam o serviço sentado recebiam um pedaço de pão. Os que o faziam em pé, recebiam um pedaço de pão acrescido de alguns gramas, a justa caloria para reproduzir o trabalho do dia seguinte. O banho, tomavam duas vezes por semana. Nos outros dias tinham cronometrado um minuto para lavar e secar os pés e o rosto. Como o tempo era pouco, apesar de tanto treino cotidiano, Elias costumava escolher se lavava o pé ou o rosto.

No dia em que conversou durante o trabalho foi levado ao investigador ao fim do expediente. A pergunta era simples: você olhou pro lado? Elias disse que sim. Alguns dias de castigo em cela individual parado durante todo o dia, no qual algumas horas tinham que ser cumpridas de cócoras.

Frio fazia em Tóquio, mas o uniforme era o mesmo no inverno e no verão. Por isso ao falar da sensação de frio era como se o sentisse novamente.

Seus colegas, na maioria imigrantes. Dos seis anos que esteve lá conviveu com alguns suicídios. Na semana anterior a sua liberação, um colega de 23 anos embrulhou sua cabeça num saco plástico durante a noite, depois de receber a notícia de que seria deportado ao seu país no fim do cumprimento de sua pena. Deixaria no Japão sua mulher e seus filhos.

Clóvis, seu amigo brasileiro, que dormia na cela do mesmo corredor, morreu um ano antes de ele terminar sua pena. Na chamada matinal dos presos Clóvis não respondeu. E esse silêncio quando acontecia anunciava que alguém havia desistido. Clóvis, segundo Elias, tinha um temperamento mais rebelde. Reclamava e dizia o que não devia. Foi encontrado morto e envolto em sangue em sua cela. Ninguém soube explicar o que teria acontecido.

Uma vez por ano a diplomacia brasileira em Tóquio fazia a visita à prisão. Conversavam com os presos e perguntavam se tudo ia bem. Os presos, acompanhados obrigatoriamente de um funcionário da prisão, que tomava nota das suas palavras, agradeciam a gentileza e diziam que tudo ia bem, como devia ser.

A sentença que determinava sua pena, escrita no mais ilustre japonês, foi assinada por ele sem que pudesse entender o que ia ali escrito. Tampouco as palavras pronunciadas pelo juiz no seu mais douto japonês.

E disse Elias que sobreviveu a esses anos. E repetia entre uma história e outra: - Vocês não devem estar acreditando no que eu estou falando. Mas eu tenho o telefone de um colega que saiu de lá, eu posso passar pra vocês pra vocês acreditarem.

E eu pensava que cria em Elias como ele não imaginava. Eu cria na fala de alguém que precisa ser acreditado. Eu cria que ali tinha alguém que usava as palavras pra dizer de si. Eu reconhecia ali Elias, fossem quais fossem os fatos. Não era um número, não era um uniforme, não era um crime, não era um trabalhador de produtos eletrônicos.

E ele se perguntou: - Por que será que a gente sobrevive a isso? E ele mesmo respondeu em franca reflexão em voz alta: - Deve ser porque, por alguma razão que a gente não sabe qual, a gente quer viver. - E já não era só a voz do Elias que falava isso. Eram seus olhos, era seu corpo. Esse foi seu testemunho que escutei. Não foram os fatos, os relatos, os suicídios, o trabalho forçado. Foi sentir a vida correr a despeito de tudo pelo corpo daquele rapaz.

Assim que o avião pousou, ele com sua ansiedade que dava saltos saiu apressado. Não tínhamos tido tempo de nos despedir. Eu queria só dar um aperto de mão e talvez nem soubesse o que dizer. Pra minha alegria o reencontrei na fila da imigração. E pude, num ato que servia mais a mim do que a ele, dar-lhe boa sorte, quando essas duas palavras me foram as mais sinceras e me fizeram mais sentidos do que em qualquer outra hora.

Escutei Elias como se escuta um testemunho. Nós tínhamos sido as primeiras pessoas com quem conversou para além dos muros dos seis anos de prisão. E sua primeira reação foi se prestar a dar seu testemunho através dos fragmentos desordenados que nos contava, que não contavam com uma seqüência cronológica, mas antes com a urgência que ele sentia naquilo.

O mesmo sentido que encontro em Primo Levi que dedicou sua vida a dar testemunho de sua experiência em Auchwitz. De usá-lo como mensagem de vida. De tornar a memória a melhor resistência e a maior rebeldia. De fazer renascer em cada testemunho o horror vivido e a promessa de que a memória se ocupe de fazê-lo presente para que não ouse a repetição.

Mas essa experiência me provocou uma angústia por de algum modo ter sentido que o mais importante Elias nunca poderia testemunhar. Que por mais que eu quisesse sentir e acompanhá-lo fraternalmente naquela viagem, por mais que me aproximasse, nunca tocaria o real do vivido.

Lembrei de Lacan. Ele dizia que as escrituras produzidas pelo cristianismo levavam a qualidade de santas porque davam notícia reiterada do fracasso em dizer uma sabedoria da qual o ser seria testemunho. Não sublimavam esse fracasso. O noticiavam. Há algo que o ser não pode testemunhar nem ter testemunhas. Há algo que estamos fadados a não comunicar. Que o testemunho esbarra, mas não toca. A repetição do testemunho nos faz insistir em tentar tocar, comunicar, nosso modo particular de gozo e horror. Mas que está fadado a estar aprisionado ao nosso corpo, nos remetendo a dimensão agonizante da nossa extrema solidão.

Quando Elias foi embora, entendi. Ficou ali entre nós, na empatia e afeto do momento, um mar de solidão inalcançável de Elias, que só me fez sentir a minha própria. Esse texto já não é o testemunho de Elias, é a minha tentativa (fracassada) de dar notícias do que não se pode enunciar. É a minha própria solidão.

4 comentários:

Luís Filipe disse...

De arrepiar o teu relato.

Daniela Felix® disse...

Camilíssima,
Já que citaste Lacan vou parafrasear Sartre e te dizer que estamos condenados à solidão.
Fique bem!
Beijos,
Daninha :P

m.davi disse...

Camila,

teu relato e a história de Elias (como já havia tido a oportunidade de ouvir antes mesmo desta postagem) são impressionantes, intensas. O peso da dor, das palavras, a força com que foram ditas e transcritas, tudo isso... a solidão de, ao final, não conseguir sequer consolar ou tentar reparar o imenso buraco na vida daquele homem repentino e surpreendente.

Me impressionou também a vontade de querer viver, de querer sentir, realmente, o que é a vida. Tão repleta de gozos e sublimações para alguns e tirana e ditadora para tantos outros.

Fico me perguntando, o que podemos fazer: ler nossos livros, tomar nossas doses de bebida alcoólica ao som de música popular ou bossa nova, fumar cigarros, trocar conversas, ao final debruçarmos em escrever uma centena de palavras que têm a pretensão de descrever e modificar a vida do outro. Mas é justo esse outro que tem essa tarefa, ninguém melhor do que um indivíduo que resiste e tem o afã de contar a sua história, de memorizar momentos de terror sofridos em nome da vontade de querer viver.

Fazes muita falta por acá muchacha, precisamos de novos ares e novas idéias para balançar o marasmo de um mar que puxa, mas não traz ondas, nem peixes.

ps: tua solidão é também nossa!

c. disse...

Mario e Dani,

Minha solidão não é sozinha, só ando em boa companhia, e vocês fazem muita falta por aqui!

Mas a minha solidão ali, nem é de desespero, e nem é causada pela minha impotência diante daquele homem. Ele já era, por si, muito potente. Minha solidão é saber que há algo que está condenado ao meu corpo e às minhas sensações. É aquilo de dor e gozo que não posso comunicar a vocês, que quero tanto bem e que me fazem tão bem!!!!

Por isso, um abraço vale mais que as palavras todas ditas!

Todos os abraços pra vocês!