18 de fevereiro de 2007

qual escrita?

" Não posso me escrever. Qual é esse eu que se escreveria? À medida que ele fosse entrando na escritura, a escritura o esvaziaria, o tornaria vão: produzir-se-ia uma degradação progressiva, na qual a imagem do outro seria também pouco a pouco arrastada (escrever sobre alguma coisa é destruí-la), um desgosto cuja conclusão só poderia ser: para quê? O que bloqueia a escritura amorosa é a ilusão da expressividade: escritor, ou me acreditando como tal, continuo a me enganar sobre os efeitos da linguagem: não sei que a palavra 'sofrimento' não exprime sofrimento algum e, por conseguinte, empregá-la, não somente não comunica nada, como também irrita logo (sem falar do ridículo). Seria preciso que alguém me ensinasse que não se pode escrever sem elaborar o luto da sua 'sinceridade' (sempre o mito de Orfeu: não olhar para trás)."

(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 15 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2000)

3 comentários:

nilo trindade disse...

vou me abster de repetir uma defesa do texto.. apenas ratifico o que escrevi em comentário do post anterior...

mas em alguns momentos já tive essa sensação de falsidade no escrever... talvez resultado de momentos em que esperamos da escrita mais do que ela pode nos dar .. talvez queiramos uma verossimilhança que não existe... vivemos num mundo analógico e talvez queiramos as vezes ser digitais.. pra simplificar as coisas...

enfim...

bjos

nilo santana

murilov disse...

ei, post colocando textyop já existente não conta como atualização!!!

e atualiza o link da minhab página
agora é
http://chuva.tipos.com.br

beijos e até mais

Juliani Santana disse...

maravilhoso, perfeito!!
sem mais palavras.