16 de fevereiro de 2010

Sessão epistolar (Re:1900)

Re: 1900‏

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Enviada:

segunda-feira, 1 de janeiro de 0001 0:00:00

Para:



Caríssimo Dr. Becker,


Como tenho passado? Agraciando com a mais possível paciência o panóptico guarapuavano. A cada semana o sufoco aumenta, a calma diminui (se é que ela ainda existe). A cada semana aumenta o descuido proposital com os hipócritas bons costumes desta cidade que me irrita, talvez muito mais do que essa sua irritação noticiada.

Ontem o Residencial da "Família das Faculdades Campo Real" foi quase assaltado. Eu quase cheguei no mesmo horário que os assaltantes, e sinceramente, me deu o desejo íntimo de ter sido sequestrada. Acho que estaria passando os dias com melhores companhias e menos hipocrisias. O quase assalto, claro, terminou com a polícia chegando velozmente e dando os habituais sopapos nos "delinquentes". Relato esse noticiado às gargalhadas pelo professor de Direito Constitucional. Ironia? Não mesmo, acho que já passou do ponto. Pois é, sufocos e sufocos, no mais absurdo e incoerente estar no mundo. Daí a tão importante, cínica e indispensável frase: "sem se entorpecer não dá".

Quanto às ironias do lado daí, nada surpreendente que o fato notório da confraria (que contou com a presença dos tão esperados professores) tenha sido a disputa pelo que eles têm de mais importante para ser mostrado: as polegadas a mais que os fazem ir comer porco no rolete entre os iguais.

Pois aqui meus olhos também escurecem castanho-escuro ao olhar o mundo. E fico feliz por esta infinita possibilidade de trocas e transformações que a convivência e os sentimentos nos permitem. Não pode ser causa de irritação, mas alegria capaz de diminuir o sufoco, de colorir a ironia, e aplacar o absurdo.

Espero que a essa altura o medo e irritação tenham se dissipado por aí, e tenha apenas permanecido a possibilidade de novos encontros para brindar nossas trocas.

Beijos
nos idos de 1800

Srta. Prando

Aqui um poema que gosto e que fala das "infinitas tessituras do real". É disso que vivemos... acho...

"Verdade é que cada um morre sua própria morte
que é única porque feita do que cada um viveu
e tem os mesmos olhos azuis
que ele
se azuis os teve;
única porque tudo o que acontece
acontece uma única vez
uma vez
que infinita é a tessitura do real: nunca os mesmos cheiros os mesmos
sons os mesmos tons as mesmas
conversas ouvidas no quarto ao lado
nunca
serão as mesmas a diferentes ouvidos
a diferentes vidas
vividas até o momento em que as vozes foram ouvidas ou
o cheiro da fruta se desatou na sala; infinita
é a mistura de carne e delírio
que somos e
por isso
ao morrermos
não perdemos todos as mesmas
coisas já que
não possuímos todos a mesma
quantidade de sol na pele a mesma vertigem na alma
a mesma necessidade de amor
e permanência (...)"


(Ferreira Gullar - Rainer Maria Rilke e a Morte)

__________

(Dr. Becker, aliás, que evento do porco no rolete foi esse, que não me recordo?)

Um comentário:

Daniela Felix® disse...

é por estas e outras viagens que te amo! Não existes Mulher!
Beijos sempre!