21 de agosto de 2009

Sobre estar vivo


Sobre estar vivo


Parte I

Marisse e o vinho
Em 2001, conheci Marisse. Uma dentre poucas pessoas que marcou um antes e depois na minha vida. [Iolanda e Artemio, Carolina e Felipe, não fazem parte desse grupo, porque a convivência com eles, desde que nasci, me fazem constantemente em mudanças graves e felizes].
Marisse tem uma marca inconfundível: sua risada. Sua risada não é de sarcasmo, escárnio, nem é seu esconderijo. É um riso para o novo. É um riso que aceita o contingente, embora não se resigne a ele. E o acolhe, e o renova, e o transforma. E se transforma.
Marisse é a mulher aberta para o que vem. Mas o que vem não é futuro, é o presente. Seus três filhos não são mais que a metáfora e o concreto disso. Da abertura para o novo e inesperado.
É preciso mais que coragem. Os corajosos, por vezes, têm coragem para se defender, para enfrentar, mas raramente a coragem é a mesma para se desfazer e refazer diversas vezes.
Marisse é a melhor introdução para falar de agora.
O antes e depois de Marisse está concretizado na minha relação com a comida. Para quem me conhece, até conhecê-la, tinha dias em que me esquecia de comer. Isso era apenas a representação que eu tinha com um dos meus sentidos: o paladar. Ele era útil. Nada mais. Era útil para que eu continuasse viva. Por isso comia.
Quando conheci Marisse, a comida se transformou. A comida passou a ser, pouco a pouco, fonte de prazer e de descoberta, de abertura para o novo. Com isso ganhei quilos e, principalmente, prazer.
A ética do prazer desvinculada da utilidade.
Na mesma época assisti a um filme chamado Os cinco sentidos. Naquele momento ele me disse muito. Eram personagens que utilizavam muito seus sentidos, mas eram incapazes de desfrutar deles.
Meu sentido de humanidade passou a ter como referência a possibilidade de desfrutar mais e com mais intensidade dos cinco sentidos disponíveis.
Os amigos que tenho, e que sabem quem são, são aqueles com quem desfruto dos cinco sentidos, e através dos sentidos, a melhor sensação: “estou viva”.
Pois há um capítulo que sempre me intrigou no que toca as sensações: o vinho.
Tenho um ar de suspeita irresolúvel diante dos que falam de vinho. Até hoje não conheci ninguém que falasse de vinho sem que me parecesse um gosto pelo suposto status mais do que pelo gosto, ele mesmo.
[Aqui uma referência a um outro amigo caro, o Luis Felipe. Sei da sua curiosidade e prazer por essa bebida. Mas foi o único que me soou genuinamente em busca de um gosto que lhe trouxesse novas sensações e percepções.]
Minha relação com o vinho parou no gosto do vinho nacional Miolo. Quando tinha cerca de 19 anos comecei a distinguir o gosto de um Almadén e de um Miolo. Dali em diante, nada mais me pareceu muito diferente. Eu e meu paladar de batata-fritas.
Por isso sempre achei desnecessário comprar um vinho de R$40,00, supostamente mais complexo. Pagaria por algo que eu não teria qualquer condição de desfrutar. No máximo, pagaria para sustentar um status que nunca tive.
Há alguns dias, comecei a ler um livro chamado “O gosto e o poder”, cujo autor é também o diretor de Mondovino. Apesar de uns recursos retóricos que cada dia gosto menos e de uma falsa humildade em alguns momentos, esse livro me acercou ainda mais do paladar, do prazer, e do vinho.
O vinho como a expressão artística dada ao paladar. O vinho como a abertura para o novo. Acho muito provável que meus colegas que compraram seus vinhos a 50 ou 100 reais e experimentaram bons vinhos, não foram muito longe do gosto de um Miolo um pouco mais apurado. Açucarado com alto teor alcoólico. É melhor, mas é o mesmo.
O vinho, como a Marisse, para mim, pode ser o canal para que meu paladar experimente mais, experimente diferente, experimente, de fato. E esses vinhos são raros (e não necessariamente caros), como a Marisse.
Ainda tenho meu paladar de batatas-fritas. Há outros sentidos um pouco mais apurados. Mas há, em mim, uma vontade imensa de estar viva.
Por isso, começo agora uma viagem.

5 comentários:

Luís Filipe disse...

Linda foto. Saudades da Marisse! E salve o Miolo!!!!!!!!

m.davi disse...

De vinhos não entendo muito, não passo de um degustador do "Campo Largo" (vinho suave de mesa) e confesso que não me acostumei ao paladar de um vinha tinto seco à la miolo. Em verdade, prefiro uma boa caipirinha ou uma cerveja gelada, é o suficiente! A minha praticidade me ajuda nessas horas.

Mas que seja boa a viagem e que traga bons (novos e velhos) gostos.

Saudações!

c. disse...

Vou participá-los da viagem degustativa!

A começar por ser sempre contra os esnobismos com que se aprendeu a relacionar o vinho.

E a continuar pela possibilidade do gosto pela subversão, que pode ter no vinho um grande aliado. Desde que possamos efetivamente escolher o que beber.

Nem Miolo nem Campo Largo. Ou talvez eu comece a preferir o bom e velho Campo Largo!

Luís Filipe disse...

Boemia de verdade não dá muita bola pra gostos supostamente complexos guardados numa garrafa de vinho. O Bob Dylan que adorava alardear a respeito de madrugadas anteriores nas quais passara bebendo vinho barato acompanhado de algum insano à disposição. Ou seja, assim como o boteco despojado é o que há de verdadeiramente mais "fino" em meio a tanta afetação podre e sofisticada, vinho é para beber, se embriagar e ponto final. Ou reticências!

Daniela Felix® disse...

Camila,
Nossa última viagem degustativa de vinhos e espumante me rendeu uma das melhores histórias da vida!
Digo que o preço e o prazer do "buquê" não são nunca melhores que a boa companhia!
beijos e saudades!