15 de maio de 2006

o óbvio ululante



Fosse escrever o dono da fantástica frase: "o óbvio ululante", Nelson Rodrigues talvez não concordasse comigo em várias colocações que vou aqui fazer. Mas que estamos falando de coisas óbvias, estamos.

Estou absolutamente estarrecida pelo óbvio. Sim, o óbvio é capaz de estarrecer, especialmente quando ninguém, ou quase ninguém, fala dele.

Faz alguns dias que São Paulo e algumas outras cidades estão vivendo situações próximas a de uma guerra civil (e aqui me desculpem os sociológos e seus termos fundamentados). As pessoas que não gostamos de encontrar nas ruas, estão ocupando as ruas. Mas agora de modo muito pouco civilizado. Embora também não tenhamos ensinado isso a elas.

Não estou querendo afagar a perversidade alheia. Estou querendo apontar a nossa. Não vou dar um passo atrás, do que foi, ou as razões que nos trouxeram até aqui. Vou pensar daqui pra frente. E este óbvio é que se anda calando.

Estarrecidos, as autoridades públicas, a população atingida, a mídia, não se cansam de perguntar: - até quando? Mas até quando o quê? Até quando vamos ter que ter tolhidos os nossos direitos individuais de ir e vir em nome de uma "guerra declarada" pelo "crime organizado"? Ou até quando vamos alimentar cotidianamente este caos e esta desagregação social? Até quando vamos manter vivos esta escória social? Ou até quando vamos continuar ignorando a existência social destas pessoas?

Não se trata de nos culpar absolutamente da perversidade alheia. Trata-se de saber que também fazemos parte dela. E não há perversidade clara, óbvia e ululante nos comentários atuais e nas receitas para interromper esta guerra?

O que se ouve sistematicamente é: aumentar o recurso da segurança pública, sermos mais duros, termos polícia melhor aparelhada, maior repasse de verbas federal aos estados. Como se nós já não investíssimos muito mais dinheiro na segurança do que em outros setores. Como se nós já não endurecêssemos ao absurdo as leis penais. Como se nossos juizes já não carregassem a pena severamente sobre estas pessoas que hoje fazem guerra. Mais do mesmo? Para assistirmos quantas vezes este grito suicida que hoje corre as ruas de São Paulo?

Não vi UMA SÓ VEZ, em todos os noticiários sobre os acontecimentos, o pedido para investimentos públicos na realização de execuções de penas adequadas às pessoas condenadas. Sim, porque severamente já são tratadas. Com celular ou sem, não há quem entenda que a vida ali é humana. Ouvi, ligeiramente, que em uma das rebeliões em presídios, os presos alegavam que havia pessoas ali que já cumpriram pena e continuam presos. Isso não é novidade para nenhuma das autoridades. E nem por isso se vê mais investimento e estrutura para que minimamente as garantias legais sejam cumpridas. Sim, porque quando Bial, no Fantástico, fala que a polícia é que garante o cumprimento da lei, ele está se referindo à lei que lhe garante continuar vivendo como gosta, mesmo que outras leis, tão importantes, sejam sistematicamente violadas. Dessas não se fala. Até porque talvez não interesse.

Não vou também falar de outra ferida óbvia e ululante. Uma amiga minha, que mora em São Paulo, me manda uma mensagem no msn dizendo que está assustada, porque os paulistas estão vivendo um clima de guerra civil, com toque de recolher, suspensão das aulas na faculdade, saída mais cedo do trabalho. Que paulistas estão vivendo um clima de guerra civil? Porque um grande número deles, que moram nas áreas de periferia, experimentam este clima cotidianamente, e até o momento não me lembro de noticiários infindos falando sobre caos e desordem. Lá isso não se trata de desordem? Lá não se quer aplicar a lei, Bial?

Óbvio e ululante. Ninguém diz nada porque a gente quer manter a ilusão de que podemos continuar vivendo na mesma sociedade que estamos, reproduzindo as mesmas ordens que reproduzimos, sem sermos ameaçados por aqueles que não podem usufruir das mesmas benesses, ou talvez, das mesmas perfumarias, como garantia de direitos individuais. É uma espécie de esquizofrenia, ou quem sabe os psicólogos me corrigissem, uma espécie de psicose. Queremos tudo, prazer em tudo, sem qualquer limitação a nossa sanha de satisfação e gozo total. O gozo total, no caso, significa ignorarmos o outro que não só não partilha deste, mas como também é engolido por esse.

Pois que os outros perversos também gozem. E a mesa esteja posta. E se quisermos limitar o deles. Que saibamos limitar o nosso.

Não cabe mais se perguntar se devemos interromper a "desordem" e o "caos" que atingiram os centros da cidade. Que se interrompa. Mas com isso, que se interrompa a nossa perversidade.

Porque esta falta de obviedade vai nos levar para onde não mereceríamos ter saído. Ao fim.

E assim espero.

4 comentários:

murilov disse...

mutio pertinente teu comentário c.
traduziu bem o que o penso
e sobretudo me due uam maneira de responder aos que pedem por "homens fortes" na segurança

ontem mesmo ouvi dum advogado na mesa ao lado que "deveríamos acabar com o princípio da presunçaõ de inocência, nenhum sistema penal avançado tem mais isso"

cada um ouve o que quer, sobretudo se for pra ocultar de si mesmo a própria perversidade

eu pefiro ser reles, ser torto e reconhecer essa minha perversidade, só assim pra diminuí-la e entender a perversidade alheia

abraços menina

Diogo disse...

"Para assistirmos quantas vezes este grito suicida que hoje corre as ruas de São Paulo?"

Sufocar os gritos suicidas...querem sufocar os gritos suicidas.
É como disse a Hilst, com seus olhos de cão:
"Continuo mudo. Li em algum lugar que seccionam as cordas vocais dos animais cobaias. Para que não se ouça o grito. Os urros."
Só que a gente (animais ok, cobaias ok, mas inteligentes pra caralho) além de matar (como as feras, só que com requintes) a gente também se mata.

O medo de morrer de causa fatal-externa é o último em hierarquia... Esse é o caminho que aspiramos. Morrer de morte morrida é cumprir com a nossa obrigação; é um alívio. O Abujanra disse outro dia (talvez citando alguém): "Como sofrem essas criaturas! Para morrer demoram aaaanos..."

Medo mais temido é o de matar...
Medo mais temido é o de se solidarizar com os gritos suicidas...
"If one cannot control his life, will he be driven to control his death?..."
Não fala alto Vedder... Não grita assim.
As pessoas têm medo dessa tua proposta.

Dulce disse...

Arrasou no texto! Assino embaixo!

Mário Davi disse...

Quanta asneira eu tive que escutar e me conter, quanta hipocrisia e demagogia! Um discurso que me fazia - e faz ainda - vomitar ao ouvir vezes e vezes repetidas, incessantes, alienadas: "Cadê a segurança nesse país?", "Abaixo a pena de morte!", "Viva a carnificina!", entre muitos outros.
Mas uma sociedade, ou um grupo social - se assim o queira - não merece continuar viva se não reconhece seus erros, se não reconhece suas falhas, seus filhos, bastardos, ninguém os quer assumir. Jogue a batata à quem estiver na frente e saia de fininho!
Eu tenho nojo de tudo o que ouvi, tenho vergonha e tenho medo. Medo de que daqui a alguns anos eu me veja em outro regime totalitário, numa sociedade indigna que ainda não aprendeu ... com tantos erros!!!
Finalmente ouvi algo que me confortou ... que me fez pular da cadeira, mas não de raiva, de angustia e sim de alegria, de ver que ainda tem jeito, que existem pessoas que tiraram as vendas e veêm não só o que querem ver.

"A sociedade cria seus próprios monstros!" (não sei de onde ouvi essa frase) ...