17 de abril de 2006


BANGALÔ

(esse era pra enviar, há uns três anos, pro Marcelo Mirisola, que escreveu Bangalô. Nunca mandei, agora publico aqui, quem sabe ele lê....rs)

Pior que convence. Provoca revolta, piedade, e desloca. Tantas vezes me esqueci que era uma personagem que havia no texto. Procurei o endereço pra mandar uma bomba, às vezes pra mandar uma flor, e até pra mandar um arco-íris que fosse de cores inventadas, nem de marrom, nem de lilás. Cores inventadas. Uma personagem que transita entre a auto-piedade, a culpa cristã e a iconoclastia quase muda.
É assim, o texto quase nos leva às análises psicologizantes, porque mais uma vez confunde a personagem com a realidade. E pode ser, de qualquer um. Parece o contra-ponto, o contra, necessário hoje.
Comum seria falar das possibilidades de cada um ser o que é etc e tal. Mas não, sejamos contra, a começar destituindo de lugar o discurso do politicamente correto, que engessa, emblematiza e congela as demais possibilidades, inclusive a de ser intolerante.
É isso, há um grito de se querer ser intolerante. Não se pode mais, não há lugar, a política do bom comportamento, da sensatez diz Não. Alto e sonoro. Como se houvesse alto-falantes espalhados nas ruas urbanizadas, que não gritassem orações de Alah, mas murmurassem regras e normalizações (laicas?).
E há sempre os gritos contrários dissonantes. Valorosos não pelo que dizem. Mas porque dizem.
Por outro lado, a grande armadilha é querer ser dissonante para ser original. E aí parece uma propaganda de cigarro ou coca-cola. Nada mais consumível neste mundo de hoje do que querer ser original. Consumismo até de si mesmo. Grito enlouquecido de querer ser a si mesmo. Quando isso não é mais que devassa interna, a necessidade de unificar e aplainar o caos.
Caio na armadilha da personagem e da realidade. Porque convence. O que vale é o fluxo contínuo, a solidão filha da puta, e a linguagem que jorra em leque. Senta-se, degusta-se, e principalmente, quando se termina, não se está encostado no mesmo chão.

Um comentário:

V. disse...

qualquer dia esse livro vai cair no mesmo buraco-poço-escuro-nego em que caiu a hilda o jóia e o milton...